Ofício

vira a taça
fica sem graça
engole o vinho
vermelho como sangue

não usa salto
prefere chinelos
saia, vestido
tecido que não amassa
não passa
os cabelos, não evita
o vento, não foge do relógio
pega fogo por dentro

tem vários nomes
cada dia escolhe um
brinca
de ser ela mesma
mulher e menina
casa de sonhos
morada de gente
ser inquieto

desarruma, desacostuma
faz novo molde
tece, com pontos de leste
um dia de sol


Resta-me

não sei o quanto resta
de quem fui
o quanto flui em tom passado
no corpo que se entrega ao sonho

não lembro o sabor da comida
reduzi os passos para evitar a pressa
libertei as ideias para deixá-las fugir
vomitei, não sei, não sei

o tempo que nasce é oferta de vida
nua, revirada, mexida
ser gente é coragem
essa viagem é passagem

saio da roda, entro na dança
salto sem salto
se cair, levanto
se errar, me lavo
se acertar, crio um ovo

hoje
sou feita de sol
 


Olhar de pedra

ele me olhou
pediu que eu o libertasse
da pedra
do cimento
de um único olhar

ele queria se movimentar
sair sem destino
mudar de direção
enxergar o céu
o azul do dia
os rostos das pessoas e o que diziam
os diferentes jeitos de andar
ele próprio, nunca havia experimentado
caminhar
tocar pele, mão, boca
dançar

me tira daqui!
gritou o homem do coração pulsante
mergulhado no corpo de concreto

fingi não ouvir


O malabarista do farol

o malabarista do farol
é livre como nunca saberei ser
ele me chama com o canto dos olhos
enquanto suas mãos se lançam no ar

o malabarista do farol
faz da rua o palco
do sol o texto
da fome o contexto
da fé o caminho
da miséria o vinho

não tem hora
pressa ou demora
sabe que logo todos irão embora
e mesmo assim, sorri

 


Oração

amanheço
arrumo a cama
saio com o chinelo que comprei
nas Pernambucanas

tardo atrapalhada
limpo a casa
lavo a louça
costuro a roupa rasgada

faço um verso
a ele entrego as minhas entranhas
trama tamanha
o mundo interior ser como o universo

então me inverto
acordo o olhar de dentro
viro avesso, esqueço o ego
me arremesso

existo nessa oração
enquanto o chão procura os meus pés
palavras nascem
na palma da minha mão


 


Quando Hamlet come omelete

sede e fome
início e fim
sou sem sobrenome
não me chame assim

definido, não vi
forma, não fiz
regra, não li
o que eu sabia, esqueci

linha não reto
roda não curvo
quem quiser que derrube
o seu próprio muro

dia é noite
semana é sexta
mês é abril
ano novo, quem pariu?

gato é rato
rato é prato
prato é moço
moço é osso
osso é oco
oco é doido
e doido dói

esquentei na friagem
perdi a viagem
me enterrei no espaço
do derretido artesanal

sou ar, movimento
luz e momento
ontem, hoje, amanhã
sou sem cabimento

 


Retirada

tirou o arrumado do cabelo
o inventado da maquiagem
o perfume comprado
na última viagem

tirou a roupa cara
o brinco
o sapato de salto
a comodidade do asfalto

tirou o cartão de visitas
a agenda atrapalhada
o emprego e o salário
o cargo que não via o operário

tirou o que sabia
cenas habituadas
o caminho que lhe dizia quem era
o amanhã que não tinha primavera

retirou-se

raro, se faz achada
dizem que quando chove
fica molhada
e que no sol se bronzeia
mais vermelha do que dourada

erra e acerta
já caiu, se ergueu e tombou
machucou, doeu, levantou
escorregou, aprendeu e andou

virou fim, avesso
reinício, recomeço
princípio não se sabe de quê

foi vista ontem sendo
sonho de se atirar nas águas tratadas
quiçá águas claras!
do rio Tietê

 


Almar

tocar piano no meio do rio
fazer nota virar peixe
acorde, correnteza
pescar uma canção

dançar, pulsar pé
arrastar um fio alegre
perseguir o sol, o sorriso
o abraço, o beijo, o viço

o que vale no hoje que temos
avança na incerteza que sabemos
corre, vida
para algum lugar que
só nós conhecemos

 


Quando a sanfona vira mundo

roda, sanfoneiro
leva música no peito
alegria no suor dos dedos
força nos braços e nas mãos
que tocam o instrumento

atravessa estrada depois de estrada
a vida não tem parada, abre e fecha
faz partida e milagra uma nova acolhida
lembra o segredo da transitoriedade esquecida

roda, sanfoneiro
espalha o sopro arteiro das notas
em cada linha a partitura esquece as derrotas
na pausa o tempo encontra o aprendiz

não queira explicar
a boca faz para si uma mentira
o gesto é que não se limita
aos medos do interior

sonha a noite
acredita que nela o sol sorriu
a lua do gato de Alice tudo viu
nada negou, não dormiu

quando apagarem a luz
ouve o silêncio
vê a estrela que te guiou

guarda na memória
os encontros que a sanfona fez brotar
as histórias de cada lugar

será este o eterno alimento
a fome que te acompanhará até o leito
o leite derramado pelo povo que te faz
nada mais, firmamento

 


Jorro de sol

dança, moça
balança o vestido florido
roda o tempo em seu ventre
recebe o que virá
o que dirá?

dança, moça
os cabelos brincam em suas costas
o sorriso se espalha na tarde triste
uma outra mão a encontra
existe

dança, moça
molhada solta graça
jura o sol acompanhada
jorra a dois
o que não pode mais ser
depois

 


Nasço no que ouço

dom quando Tom
bela quando Ella
doce quando Nara
Barroso quando Brasil em aquarela

amor quando Vinícius
poesia quando Chico
baby quando Gal
balanço quando Wilson Simonal

louvação quando Gilberto
mágica é Egberto
fogo quando Elis
todo quando Caetano
Rita quando o rock não é americano

minas quando Miltom
silencio quando João
morro quando Cartola
nasço no que ouço em mim
sem fim, agora 

 


Queda

quando o fim chegar
descongele o olhar
quando o teto desabar
experimente caminhar
quando as paredes caírem no chão
siga o coração
não há passado sem história
memória, dor e glória

mas sim
haverá um novo início
no espelho, no passo,
no pulso, no vício
da vida que teima em levantar
e a todos se entregar
sem explicação

 


Foz da voz

navegar em horas lentas
águas bentas
flutuar acima das copas das árvores
verdes mares, terras distantes
gigantes
 
rio afora
o coração aflora
dispara, não para
de vagar 

inundar o caminho
até reencontrar o velho ninho
sabiá saberá ser como o passarinho
que descobriu na foz a própria voz
o canto do seu lugar

 


Rio da infância

hoje andei no rio
da infância
onde era água
agora dói pedra
onde sobrava correnteza
sopra o ar
o peixe não pula, não
nada
vida passada
ser tão

hoje cruzei o impossível
o chão antes invisível
avancei na seca bruta
idade adulta
à espera do que faça desaguar
o mar
que guardo em mim

 


Ouça uma canção: "Amanda"

Composição e canto: Silvia Camossa. Arranjo e violão: Sérgio Leoni. Baixo: Itamar Pereira. Bateria: Paulo Oliveira.